Seção 01: O nascimento da Ciência.(1)

"Ah!...Espírito sem luz! Você não imagina o tamanho
da aventura em que se meteu."

m termos históricos o pensamento científico é uma invenção recente. O pensamento tecnológico não. A tecnologia, isto é, a capacidade de construir artefatos que de alguma forma tornam a vida mais fácil antecede em muito a Ciência.

Em todas as civilizações, desde início dos tempos, os artesãos usam o método de "tentativa e erro" no seu trabalho. Ou seja, se temos um problema e uma ideia de como resolvê-lo providenciamos uma solução. Testamos, se não funcionar, tentamos novamente de um jeito diferente. Deste modo toda a tecnologia dos povos da Antiguidade foi construída.

Nos dias de hoje, quando Ciência e a Tecnologia se apresentam tão ligadas a ponto de serem confundidas uma com a outra é necessário ter sempre em mente que elas são distintas. Podemos pensar a Tecnologia como a "Arte de fazer". A Ciência, ao contrário, é muito mais que isto, pois requer a invenção de Princípios Gerais sobre o funcionamento da natureza.

No século VI a.C, a cidade grega de Mileto era um importante entreposto comercial. Situada na costa oeste do Mar Egeu, numa região chamada Jônia que atualmente pertence a Turquia, Mileto concentrava as atividades comerciais da região. Nesta época surge entre os seus habitantes um grupo de estudiosos com uma maneira diferente de pensar sobre o mundo. Este tipo de pensamento era revolucionário e se espalhou rapidamente pelas cidades gregas do continente europeu.

A novidade e a sua importância para nós vem do fato desses estudiosos não se limitarem as questões práticas. Eles estenderam o seu interesse para questões tais como a natureza das coisas, a organização da matéria e a nossa posição no mundo.

Embora com visões diferentes entre si esses filósofos apresentam características comuns no seu pensamento. Todos acreditam que o Universo possui uma ordem, isto é, o Universo é um Cosmos e não um Caos. Além disto, num ato de extrema pretensão, acreditam que esta ordem pode vir a ser compreendida. Acreditam também que, na investigação sobre o mundo, não se deve recorrer aos mitos, ao pensamento mágico ou religioso.

"As questões da natureza, eles alegam, devem merecer explicações naturais e os raciocínios empregados nas explicações devem ser baseados no bom-senso. Em termos modernos, eles alegam que as explicações encontradas para os fenômenos da natureza devem apelar somente à razão."


Pelo que sabemos um dos pioneiros entre esses filósofos da natureza chamou-se Thales e viveu em Mileto entre os anos 640 e 562 a.C. Ao observar a infinita diversidade da natureza Thales pensou ser possível que ela tenha surgido a partir de uma substância primordial que, ao longo do tempo, foi se diferenciando. Ele pensou ser a água essa substância. É possível que a razão para essa escolha esteja no fato da água ser essencial à vida e estar presente em quase todos os corpos.

Uma abordagem diferente da questão surge com Empédocles (492 - 432 a.C.), cidadão da cidade grega de Agrigento, na ilha da Sicília, atual Itália. Ao contrário dos filósofos de Mileto, Empédocles admite não uma, mas quatro substâncias fundamentais: os elementos Água, Terra, Ar e Fogo. Para ele as demais substâncias presentes na natureza surgem da combinação desses elementos.

Para uma época em que não se disponha de instrumentos de observação além dos sentidos humanos tal ideia parece bastante sensata. Se entendermos o "elemento terra" como representando os sólidos, o "elemento água" os líquidos e o "elemento ar" representando os gases, é aceitável imaginar todos os corpos como compostos de uma mistura adequada desses elementos fundamentais. O fogo pode ser pensado como o elemento presente nos corpos que entram em combustão.

Pitágoras (570 - 500 a.C.), cidadão grego nascido na ilha de Samos, no mar Egeu, não pensava em termos de substância primordial. Ele estava fascinado pela beleza e pelas simetrias que encontrava na natureza. No nível mais fundamental da realidade, segundo Pitágoras, tudo é número. Isto nos soa familiar, pois de certo modo somos todos Pitagóricos. Na nossa sociedade obtemos conhecimento sobre alguma coisa quando realizamos medidas sobre ela. Você, por exemplo, pode ser conhecido pelo seu CPF, seu salário, sua pressão arterial, seu peso, etc. O conhecimento sobre você está inserido num conjunto de ... Números!


Algumas imagens sobre a civilização grega da época de Aristóteles. Clique sobre as miniaturas para ver as imagens em tamanho maior.

Acrópolis de Atenas reconstruída. Escola de Atenas de Rafael. O caçador, mosaico grego. Teatro de Dionisios em Atenas.


- Antes de terminar esta página, espírito sem luz(2), um lembrete: Estamos num curso de Mecânica. Por isto vamos nos limitar aos aspectos do pensamento grego ligados diretamente a este assunto. Nossos amigos gregos, é claro, não se impunham tais limites. O pensamento grego alcança a Filosofia, a Sociologia, as Matemáticas, a Geografia, a Biologia, etc.

Os gregos, ao contrário dos Egípcios, dos Babilônios e outras civilizações vizinhas, não se limitavam ao caráter aplicado do conhecimento, estavam preocupados com questões gerais. No entanto, não fazia parte da sua maneira de pensar a realização de experimentos para testar suas teorias.

É importante lembrar que a força de trabalho nas cidades gregas era composta de escravos. Talvez por isto os cidadãos gregos não visassem as aplicações práticas do seu pensamento. Esta preocupação com as aplicações e com os testes das teorias surge na ciência muito mais tarde, no final da Idade Média, em condições sociais muito distintas.

De maneira diferente da nossa, não há entre os pensadores gregos a preocupação de saber qual entre as várias teorias existentes sobre um fenômeno é aquela que revela a "verdade" sobre a natureza. Esta maneira de pensar tem consequências importantes, pois cria a possibilidade de teorias diferentes sobre o mesmo tema conviverem pacificamente.

- Certo professor, melhor para os cidadãos gregos que não se preocupavam em garantir a refeição do dia seguinte. Mas eu estou interessado em saber quais eram essas grandes questões que ocupavam o pensamento dos filósofos gregos ?

- Muito bem! Uma dessas questões é: afinal, do que é feito o mundo?


(1) As informações históricas, a argumentação e a linha narrativa deste trabalho segue de perto aquela apresentada no livro Força e movimento: de Thales a Galileu, do professor Luiz O. Q Peduzzi. Usamos a versão publicada internamente pelo Departamento de Física da Universidade Federal de Santa Catarina. Ver REF. pub0001.

(2) O texto deste Fascículo online está estruturado na forma de uma conversa informal entre um professor de Física e seu aluno. Procuramos dar ao relacionamento deles um tom de “litígio respeitoso”. O professor se refere ao aluno usando a expressão “espírito sem luz”. Esta expressão é usada aqui para designar “aquele que procura pela sabedoria, pela iluminação”. Neste sentido, é claro, somos todos “Espíritos sem luz”.



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